Logística

O governo da Bahia estuda reativar 600 km de trilhos antigos ligando Salvador a Juazeiro: a ideia é transformar a velha Estrada de Ferro da Bahia ao São Francisco em corredor moderno pra transporte de carga e passageiros pelo estado

O governo da Bahia, sob comando de Jerônimo Rodrigues, estuda reativar 600 km de trilhos da antiga Estrada de Ferro da Bahia ao São Francisco entre Salvador e Juazeiro, com R$ 16 milhões do Novo PAC e parceria com universidade espanhola para o estudo de viabilidade do corredor de carga e passageiros.

O governo da Bahia iniciou estudos para reativar 600 km de trilhos da antiga Estrada de Ferro da Bahia ao São Francisco (EFBSF). A linha histórica ligava Salvador a Alagoinhas e Juazeiro, no norte do estado, e está parada há décadas.

A proposta é transformar a antiga via em corredor moderno para transporte de cargas e passageiros. A Companhia de Transportes da Bahia (CTB) conduz os estudos e considera o projeto um dos principais potenciais estratégicos para integração logística do estado.

O presidente da CTB, Eracy Lafuente, deu entrevista exclusiva ao portal A TARDE sobre o projeto. “Se a reativação for viável, serão mais de 600 km de infraestrutura que, daqui a 30 anos, por exemplo, podem se tornar o eixo de um trem rápido ligando o Nordeste”, afirmou.

O Programa de Aceleração do Crescimento (Novo PAC), do governo Lula, autorizou repasse de R$ 16 milhões para os estudos iniciais. O recurso financia a primeira etapa de avaliação técnica e econômica da reativação dos trilhos.

A localização do projeto também tem peso geográfico relevante. A ferrovia deve ficar a cerca de 200 km de conexão com a Transnordestina, considerada a maior obra ferroviária em construção no Nordeste.

Como a CTB pretende avaliar a viabilidade dos trilhos da EFBSF

A Companhia de Transportes da Bahia já iniciou os estudos técnicos para a reativação. O foco inicial é avaliar a viabilidade econômica e estimar os investimentos necessários para recuperar a estrutura existente.

A CTB pretende contratar especialistas estrangeiros e uma universidade da Espanha para auxiliar na modelagem do sistema. A escolha pela parceria internacional reflete o reconhecimento de que Europa e Ásia possuem redes ferroviárias mais avançadas que servem de referência.

Eracy Lafuente detalhou a estratégia em entrevista. “Queremos contratar especialistas estrangeiros para que possamos construir essa relação com a Europa e também com a Ásia. Esses continentes têm expertise em transporte de trilho que transporta carga e passageiros”, reforçou o presidente da CTB.

Os estudos vão definir parâmetros técnicos como bitola, capacidade de carga, velocidade operacional e modelo de exploração. Também avaliarão o estado físico dos trilhos antigos e quanto da estrutura existente pode ser aproveitada.

A modelagem econômica é parte sensível do trabalho. Sem ela, não é possível estimar o investimento total nem dimensionar a demanda futura por carga e passageiros que justifique a obra.

Por que o projeto dos trilhos substitui o VLT Metropolitano original

A reativação dos 600 km de trilhos até Juazeiro representa mudança significativa em relação ao plano anterior. A proposta inicial do governo baiano previa apenas a expansão do VLT Metropolitano até Alagoinhas, município a cerca de 115 km de Salvador.

O VLT Metropolitano original tinha foco metropolitano. Previa ligação entre Salvador e Camaçari, passando por Simões Filho, com objetivo de conectar o Polo Petroquímico à capital e facilitar o deslocamento de trabalhadores.

Agora a perspectiva mudou para uma malha ferroviária mais ampla. O novo projeto contempla conexão entre diferentes regiões da Bahia e potencial integração com outros estados do Nordeste.

A ampliação reflete leitura estratégica diferente. Em vez de uma solução metropolitana de curta distância, o estado aposta num corredor de longa distância que pode atender simultaneamente trabalhadores, viajantes e cargas industriais.

A diferença entre os dois projetos é também de horizonte temporal. O VLT Metropolitano resolveria problema imediato de mobilidade na Região Metropolitana de Salvador, enquanto a reativação da EFBSF é vista como projeto de 30 anos com potencial de transformar a logística regional.

O que a conexão com a Transnordestina pode significar para os trilhos baianos

A proximidade dos trilhos da EFBSF com a Transnordestina é um dos pontos mais relevantes do projeto. A apenas 200 km de distância, a conexão entre as duas ferrovias criaria malha integrada que ligaria a Bahia aos portos do Pernambuco e do Ceará.

A Transnordestina é considerada a maior ferrovia em construção no Nordeste. Quando concluída, vai facilitar o escoamento de produção agrícola e mineral da região do Matopiba para os terminais portuários, e a conexão baiana ampliaria o alcance do sistema.

Para o estado da Bahia, a integração logística representaria salto competitivo. Produtores agrícolas do interior, indústrias do Polo Petroquímico e empresas de mineração teriam alternativa ferroviária para transportar carga até os portos sem depender exclusivamente de rodovias.

A questão dos passageiros também ganha escala com a integração. Um trem entre Salvador e Juazeiro pode evoluir, em décadas, para eixo de trem rápido ligando capitais do Nordeste, hipótese que Lafuente menciona como horizonte de 30 anos.

Tudo depende, no entanto, da viabilidade que os estudos vão apontar. Os R$ 16 milhões do Novo PAC são apenas o começo do processo, e o investimento total para reativar os 600 km de trilhos entre Salvador e Juazeiro pode chegar a bilhões de reais a depender do estado da estrutura existente.

O governo da Bahia ainda não divulgou cronograma para a conclusão dos estudos nem estimativa final de custo. A expectativa é que o trabalho com a universidade espanhola permita ao governo baiano modelar diferentes cenários de operação e custo antes de submeter o projeto a aprovações federais e à busca por financiamento adicional.

 

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