Uber e outros apps deixam de ser apenas bico para milhões de trabalhadores
O trabalho por aplicativos está mudando de lugar na economia. O que durante anos foi vendido como uma forma de ganhar dinheiro extra nos horários livres aparece cada vez mais como fonte necessária para pagar comida, saúde e outras despesas básicas. Nos Estados Unidos, essa mudança já aparece nos dados oficiais. No Brasil, os números ajudam a mostrar outro problema desse modelo: a renda também depende fortemente de onde o trabalhador está.
O levantamento do Government Accountability Office (GAO), órgão de fiscalização do governo americano, mostra que, em 2025, Uber, Lyft e DoorDash estavam entre os principais empregadores de trabalhadores que recebiam o SNAP, programa de assistência alimentar dos Estados Unidos. Em 2020, quando o órgão fez um levantamento semelhante, Walmart e McDonald’s ocupavam as primeiras posições. A mudança não é apenas uma troca no ranking. Ela mostra como o trabalho por aplicativo ganhou espaço entre profissionais de baixa renda e passou a cumprir uma função que vai muito além do complemento salarial.
Uma pesquisa com mais de 1 mil moradores de Michigan reforça esse movimento. Cerca de 22% dos entrevistados disseram já ter trabalhado por meio de aplicativos ou plataformas. Entre eles, aproximadamente metade afirmou que essa renda era essencial ou importante para cobrir necessidades básicas. Ao mesmo tempo, nove em cada dez valorizam a flexibilidade e mais de dois terços avaliam positivamente a experiência. O problema, portanto, não parece estar na possibilidade de escolher quando trabalhar, mas no que acontece quando essa liberdade se torna necessária para fechar as contas.
No Brasil, a desigualdade de renda entre motoristas mostra como essa conta pode mudar de acordo com o lugar. Segundo levantamento do GigU, um motorista de aplicativo na Região Metropolitana de São Paulo registra lucro médio de R$ 15,57 por hora, com margem líquida de 43,6%. No noroeste paulista, em cidades como Barretos, São José do Rio Preto e Votuporanga, o valor cai para R$ 10,11 por hora, com margem de 33%. Considerando uma jornada de 200 horas mensais, a diferença de R$ 5,46 por hora representa mais de R$ 1 mil a menos por mês e mais de R$ 13 mil em um ano.
A distância se repete em outras regiões. Em Minas Gerais, o lucro médio chega a R$ 16,05 por hora na Região Metropolitana de Belo Horizonte, contra R$ 9,36 no Triângulo Mineiro. No Rio de Janeiro, são R$ 18,49 na capital e R$ 12,24 em regiões como Angra dos Reis e Volta Redonda. Na Bahia, Salvador registra R$ 14,74 por hora, enquanto áreas como Eunápolis e Porto Seguro ficam em R$ 8,88. Os números mostram que a localização não é apenas uma questão de demanda: ela pode determinar quanto efetivamente sobra para quem depende do aplicativo.
“Capitais e regiões metropolitanas concentram maior volume de corridas, maior incidência de tarifas dinâmicas e presença mais forte de categorias premium, como Comfort e Black, que elevam o tíquete médio. Além disso, a densidade urbana reduz o tempo ocioso entre chamadas, permitindo um maior número de viagens por hora”, afirma Luiz Gustavo Neves, CEO e co-fundador da plataforma.
Os dados sobre saúde ajudam a dimensionar o fenômeno nos EUA. Uber, Lyft e DoorDash aparecem agora, juntas, na terceira posição entre os empregadores americanos com maior número de trabalhadores inscritos no Medicaid, programa público voltado principalmente à população de baixa renda e pessoas com deficiência. Em 2020, as plataformas nem sequer estavam entre as cinco primeiras. O crescimento ocorre justamente em um momento em que o acesso ao programa passa por mudanças.
Novas regras exigem, em determinadas situações, que beneficiários comprovem 80 horas mensais de trabalho ou estudo. O trabalho em aplicativos pode contar para atingir o requisito, mas a comprovação não é simples. Quem dirige para várias plataformas não tem necessariamente um registro único da jornada. O tempo gasto esperando uma corrida também pode ficar fora dos cálculos. A mesma flexibilidade que ajuda o trabalhador a organizar a rotina pode, assim, dificultar o acesso à proteção social.
A resposta começa a ser discutida em alguns estados americanos com os chamados benefícios portáteis, que acompanham o trabalhador independentemente do aplicativo usado. Nova York criou um modelo administrado por um fundo independente, enquanto a Califórnia optou por deixar parte da gestão nas mãos das próprias plataformas. As experiências são diferentes, mas colocam a mesma questão na mesa: se o trabalho por aplicativos veio para ficar, não é razoável que a proteção continue dependendo exclusivamente da capacidade individual de cada trabalhador de lidar com sua instabilidade.
